Manejo participativo de quelônios - parte 2

Fábio Sartori • 4 de agosto de 2026

Conheça um dos resultados dos estudos e trabalhos premiado pelo ILPS

Man crouching on a sandy hill, examining the ground beside a standing person under a blue sky.

De 20 a 22 de outubro de 2025, fui conhecer como é realizado o trabalho de campo do projeto “Manejo participativo de quelônios”, da bióloga Kathellen Magalhães, mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal do Acre. O projeto foi contemplado pelo Programa Jovens Talentos para a Conservação em 2024, e graças ao apoio da empresa Karoon Energy, foi estendido até dezembro de 2026.


Neste artigo, descrevi as impressões que tive ao visitar uma comunidade, que tem vários monitores do projeto.


Passamos três dias na Comunidade Carlota, à beira do rio Juruá, no Acre. Trouxemos na canoa motorizada (“rabeta”) os mantimentos que seriam usados para nossa alimentação nesse período (e também reforçariam a alimentação da família que nos recebeu), bolas de futebol e coletes de tecido leve para os jogos de futebol da comunidade, além de alguns materiais para os monitores do projeto. Ficamos hospedados na casa da dona Sirlei e do seu Bia.


A casa, de madeira e telhado de telhas de chapa zincada, é construída, como as demais da comunidade, sobre estacas de madeira, a pelo menos um metro de altura do chão.


Nessa comunidade não há alagamentos, mas o hábito de construir as casas elevadas tem a ver com proteção contra animais. 


A casa é bem simples: há um banheiro, com vaso sanitário e chuveiro, mas sem pia. A única pia da casa é a da cozinha. Não à toa, o pessoal tem problema com contaminação por vermes. A água é bombeada diretamente do rio, existe um sistema de filtragem simples para a água para lavar. A água para beber é fervida, ou trazida engarrafada de canoa.


A comunidade tem energia elétrica, gerada por vários painéis solares e baterias, instaladas pela concessionária. As famílias tem geladeira ou freezer, TV, ventilador. Há conexão com a internet (Starlink), com capacidade suficiente para aplicativos de mensagens.


Não há recolhimento de lixo, nem nenhum tratamento do lixo orgânico, nem sequer uma composteira para gerar adubo para as hortas. Todo o lixo vai para um terreno a uns 500 metros da comunidade, e é simplesmente jogado ao solo.


As crianças vão para a escola de barco, ao invés de ônibus. Todas usam coletes salva-vidas. A escola tem apenas uma professora para as cinco séries, por isso os alunos ficam todos na mesma sala. Depois da aula fazem os deveres e brincam nas áreas comuns da comunidade, entre as várias casas. Muitos são primos, a maioria tem algum grau de parentesco.


O transporte de pessoas, da produção que é vendida e dos materiais que são comprados é todo feito em barcos e canoas. Os motores fazem um ruído muito alto, e os condutores não usam nenhum tipo de protetor auricular. Na canoa que usamos, medi 100dB, a um metro do motor. É muito, e isso causa dano irreparável na audição das pessoas.


Os adultos pescam, plantam roças de subsistência (mandioca, milho, arroz), tem criação de galinhas e porcos, extraem o látex das seringueiras (sim, fui até um seringal e vi o processo todo!). A caça não é alardeada aos visitantes, mas, visivelmente, ocorre. O engajamento dos adultos como monitores da desova e proteção dos ninhos dos quelônios foi um processo lento e cuidadoso. O melhor argumento é: “se protegermos as espécies, nossos netos ainda terão tracejas para comer de vez em quando”… 

O problema para a conservação dessas espécies certamente não é o consumo local, mas, sim, a caça predatória praticada por grupos, eventualmente armados, que capturam os animais e os ovos para a venda nas cidades e até fora do estado.


Nessa ida ao campo, pude ter uma boa perspectiva de como é realizado o trabalho com as pessoas, as dificuldades dos jovens conservacionistas para executar seus projetos, as dificuldades do dia-a-dia das comunidades ribeirinhas, e a importância fundamental do apoio dado pelo ILPS para que projetos como esse saiam do papel e se tornem realidade, possibilitando o aprendizado e ganho de experiência dos alunos de mestrado e contribuindo para a conservação do planeta onde moramos, o único lugar onde podemos viver.


Essa e outras reportagens estão disponíveis na Revista Natureza e Ciência, publicação original e exclusiva do Instituto Luisa Pinho Sartori.

Hands holding a phone displaying a article beside a coffee cup and plant on a cozy table
Vista aérea da Baía da Ilha Grande com mar azul, costeira rochosa e Mata Atlântica
Por Equipe ILPS • 23 de outubro de 2026
Conheça a pesquisa da UERJ, apoiada pelo Jovens Talentos 2026, que monitora e maneja o coral-mole invasor Chromonephthea braziliensis na Baía da Ilha Grande.
Prédio histórico de Porto Alegre com a calçada alagada durante a enchente de 2024
Por Fábio Sartori • 23 de outubro de 2026
Perdas bilionárias, seguros mais caros e milhões de empregos afetados: entenda por que adaptar as cidades às mudanças climáticas custa menos do que a omissão.
Campos de Altitude do Parque Nacional do Itatiaia, com montanhas acima de um mar de nuvens
Por Equipe ILPS • 23 de outubro de 2026
Conheça a pesquisa da UFRJ, apoiada pelo Jovens Talentos para a Conservação 2026, que estuda plantas invasoras nos Campos de Altitude do Parque Nacional do Itatiaia.
Flooded residential street with muddy water, houses on both sides, and overcast skies.
Por Fábio Sartori • 2 de outubro de 2026
Enquanto ações globais contra as mudanças climáticas não ganham escala, pequenas cidades precisam agir. Veja como a análise de risco municipal pode preparar a infraestrutura local.
Onça-pintada na vegetação, vista de perfil com a cabeça baixa
Por Equipe ILPS • 2 de outubro de 2026
Atropelamentos, onças e pecuária, macacos e capivaras nas cidades: veja como a ciência aponta caminhos para a convivência entre pessoas e fauna silvestre.
Golden lion tamarin perched on a mossy branch in a lush green forest
Por Equipe ILPS • 1 de outubro de 2026
Pela primeira vez, micos-leões-da-cara-preta foram vacinados contra a febre amarela no Paraná. Entenda a iniciativa que protege uma das espécies mais raras do mundo.
Dry grassland fire with flames and smoke spreading across a savanna at dusk
Por Cristina Pinho • 1 de outubro de 2026
Ondas de calor, incêndios e enchentes já são realidade no Brasil e no mundo. Entenda por que a percepção de risco climático ainda não acompanha a urgência dos fatos.
Por Equipe ILPS • 14 de setembro de 2026
Enquanto cidades se mobilizam contra o calor extremo com a iniciativa Beat the Heat, o oceano brasileiro já sente o impacto.
Smoke rising from a brush fire in a dry, open landscape under a clear sky
Por Equipe ILPS • 12 de setembro de 2026
2026 já é um ano recorde de incêndios florestais no mundo, e o Brasil entra na fase mais crítica da estação seca com um El Niño em intensificação. Entenda os dados!
Árvores jovens crescendo em uma encosta ensolarada sob um céu claro, com uma floresta ao fundo.
Por Cristina Pinho • 11 de setembro de 2026
Uma reflexão sobre a restauração do Instituto Terra em Aimorés, MG, e por que proteger a natureza é hoje parte central da resposta às mudanças climáticas.