Manejo participativo de quelônios - parte 2
Conheça um dos resultados dos estudos e trabalhos premiado pelo ILPS

De 20 a 22 de outubro de 2025, fui conhecer como é realizado o trabalho de campo do projeto “Manejo participativo de quelônios”, da bióloga Kathellen Magalhães, mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal do Acre. O projeto foi contemplado pelo Programa Jovens Talentos para a Conservação em 2024, e graças ao apoio da empresa Karoon Energy, foi estendido até dezembro de 2026.
Neste artigo, descrevi as impressões que tive ao visitar uma comunidade, que tem vários monitores do projeto.
Passamos três dias na Comunidade Carlota, à beira do rio Juruá, no Acre. Trouxemos na canoa motorizada (“rabeta”) os mantimentos que seriam usados para nossa alimentação nesse período (e também reforçariam a alimentação da família que nos recebeu), bolas de futebol e coletes de tecido leve para os jogos de futebol da comunidade, além de alguns materiais para os monitores do projeto. Ficamos hospedados na casa da dona Sirlei e do seu Bia.
A casa, de madeira e telhado de telhas de chapa zincada, é construída, como as demais da comunidade, sobre estacas de madeira, a pelo menos um metro de altura do chão.
Nessa comunidade não há alagamentos, mas o hábito de construir as casas elevadas tem a ver com proteção contra animais.
A casa é bem simples: há um banheiro, com vaso sanitário e chuveiro, mas sem pia. A única pia da casa é a da cozinha. Não à toa, o pessoal tem problema com contaminação por vermes. A água é bombeada diretamente do rio, existe um sistema de filtragem simples para a água para lavar. A água para beber é fervida, ou trazida engarrafada de canoa.
A comunidade tem energia elétrica, gerada por vários painéis solares e baterias, instaladas pela concessionária. As famílias tem geladeira ou freezer, TV, ventilador. Há conexão com a internet (Starlink), com capacidade suficiente para aplicativos de mensagens.
Não há recolhimento de lixo, nem nenhum tratamento do lixo orgânico, nem sequer uma composteira para gerar adubo para as hortas. Todo o lixo vai para um terreno a uns 500 metros da comunidade, e é simplesmente jogado ao solo.
As crianças vão para a escola de barco, ao invés de ônibus. Todas usam coletes salva-vidas. A escola tem apenas uma professora para as cinco séries, por isso os alunos ficam todos na mesma sala. Depois da aula fazem os deveres e brincam nas áreas comuns da comunidade, entre as várias casas. Muitos são primos, a maioria tem algum grau de parentesco.
O transporte de pessoas, da produção que é vendida e dos materiais que são comprados é todo feito em barcos e canoas. Os motores fazem um ruído muito alto, e os condutores não usam nenhum tipo de protetor auricular. Na canoa que usamos, medi 100dB, a um metro do motor. É muito, e isso causa dano irreparável na audição das pessoas.
Os adultos pescam, plantam roças de subsistência (mandioca, milho, arroz), tem criação de galinhas e porcos, extraem o látex das seringueiras (sim, fui até um seringal e vi o processo todo!). A caça não é alardeada aos visitantes, mas, visivelmente, ocorre. O engajamento dos adultos como monitores da desova e proteção dos ninhos dos quelônios foi um processo lento e cuidadoso. O melhor argumento é: “se protegermos as espécies, nossos netos ainda terão tracejas para comer de vez em quando”…
O problema para a conservação dessas espécies certamente não é o consumo local, mas, sim, a caça predatória praticada por grupos, eventualmente armados, que capturam os animais e os ovos para a venda nas cidades e até fora do estado.
Nessa ida ao campo, pude ter uma boa perspectiva de como é realizado o trabalho com as pessoas, as dificuldades dos jovens conservacionistas para executar seus projetos, as dificuldades do dia-a-dia das comunidades ribeirinhas, e a importância fundamental do apoio dado pelo ILPS para que projetos como esse saiam do papel e se tornem realidade, possibilitando o aprendizado e ganho de experiência dos alunos de mestrado e contribuindo para a conservação do planeta onde moramos, o único lugar onde podemos viver.
Essa e outras reportagens estão disponíveis na Revista Natureza e Ciência, publicação original e exclusiva do Instituto Luisa Pinho Sartori.











